Há uma tradição tão velha quanto a imprensa brasileira que consiste em confundir cobertura jornalística com serviço de relações públicas. A TV Gazeta de Alagoas parece ter reencontrado essa tradição com entusiasmo de quem encontra um parente rico.
No feriado da Defesa de Direitos e Pautas Sociais, enquanto parte do país descansava, Renan Calheiros trabalhou — e a emissora, diligentemente, fez questão de registrar. O encontro com o eleitorado feminino, as referências à Lei Maria da Penha, à PEC das Domésticas, as defesas da participação política das mulheres: tudo devidamente servido ao telespectador como se o noticiário e o palanque fossem, enfim, o mesmo lugar.
Não são, é claro. Ou não deveriam ser. A distinção entre o candidato que fala e a emissora que amplifica, sem contraditório e sem equilíbrio, é precisamente o que a Justiça Eleitoral existe para guardar. A coligação Alagoas Gigante, do candidato JHC, foi ao tribunal apontar o desequilíbrio — e a pergunta que o episódio deixa não é jurídica, é editorial: quem decide, dentro de uma redação, onde termina a notícia e começa o comício?
O problema, porém, é mais fundo do que uma reclamação judicial. Quando um veículo de comunicação torna-se, ainda que discretamente, extensão de uma campanha, ele não prejudica apenas o adversário que corre à Justiça — prejudica o próprio eleitor, esse personagem que as campanhas tanto invocam e tão raramente respeitam. O eleitorado feminino que Renan buscou conquistar naquela segunda-feira merece mais do que imagens editadas com carinho; merece, no mínimo, o outro lado do espelho.
Alagoas é um estado acostumado a ver o poder concentrado em poucas mãos e poucos microfones. Que isso se repita em 2026 com a sofisticação de um enquadramento favorável e um feriado bem escolhido é, no fundo, apenas a velha história contada com câmeras novas.




