As pesquisas eleitorais têm o dom de revelar o que os palácios preferem manter na penumbra. E o que o Paraná Pesquisas acaba de iluminar em Alagoas não é pouca coisa: pela primeira vez em sua trajetória política, Renan Filho se vê na posição desconfortável de quem corre atrás — não na frente.
É uma inversão de papéis que merece ser lida com cuidado. Não é derrota, frise-se. É uma tendência, como o próprio instituto pondera. Mas tendências têm o péssimo hábito de se tornarem realidades quando não encontram reação à altura. E o problema de quem nunca precisou reagir é exatamente esse: não sabe bem como se faz. A “experiência” que Renan Filho carrega como credencial — e que é, de fato, substancial — está, por ora, sendo superada pelo desejo difuso, porém poderoso, de “mudança” que JHC encarna diante do eleitor. A rejeição fala por si: 37,6% contra 27,9% é um dado que nenhum estrategista de campanha consegue varrer para debaixo do tapete.
Há, porém, um elemento que os entusiastas da antecipação costumam ignorar: os 50,9% que, na pesquisa espontânea, ainda não sabem em quem votar. Esse contingente não é indiferença — é eleição em aberto. É o campo vasto onde as campanhas ainda serão disputadas, os argumentos ainda serão testados e os erros ainda serão cometidos. Quem lê num instantâneo de julho o veredicto de outubro comete o mesmo equívoco do médico que decreta o óbito sem esperar o fim da febre.
Para o Senado, o cenário se organiza numa corrida ao menos tripla pelas duas vagas disponíveis. Lira na frente, Calheiros em segundo com distância razoável acima da margem de erro, e Marina Candia pressionando pelo bloco da frente. Mas os 73,4% que, em pesquisa espontânea, ainda não sabem em quem depositar seus dois votos senatoriais dizem tudo sobre o estágio da disputa: o eleitorado ainda não chegou ao assunto. Julho é ensaio. O drama de verdade começa quando o calendário apertar.
A lição de toda pesquisa prematura é sempre a mesma, e ela resiste ao tempo com a tenacidade dos aforismos clássicos: mede bem o que existe hoje, mas não promete nada sobre o que virá. Alagoas tem pela frente semanas de campanha que ainda não foram feitas, argumentos que ainda não foram lançados e surpresas que, por definição, ainda ninguém prevê. O que os números de agora entregam é um retrato — e retratos, como se sabe, envelhecem.




