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Sobrevivência não é aprendizado

Onze anos no poder ensinam muita coisa. Ensinam a articular, a distribuir, a consolidar. Ensinam também, quase sempre, a não enxergar o que se recusa a ver.

O calheirismo governa Alagoas há uma geração. Uma geração inteira. E nesse tempo, Maceió tornou-se uma das capitais brasileiras com menor cobertura do Estratégia Saúde da Família — não por descuido fortuito, não por fatalidade geográfica, mas pela escolha silenciosa de quem governa sobre o que merece atenção e o que pode esperar. A saúde pode esperar. Sempre pode esperar. Até que as pesquisas mostrem que ela é, justamente, a maior cobrança dos alagoanos. Aí ela vira pauta de discurso. Virou.

Renan Filho criticou JHC pela baixa cobertura. Há uma coragem peculiar nisso — a coragem de quem passa onze anos administrando um problema, reconhece-o internamente como tal, subestima-o politicamente, e depois o descobre como munição eleitoral. Não é hipocrisia grosseira; é algo mais refinado e mais grave: é a naturalização do déficit como paisagem, até o momento em que a paisagem vira adversário. O mesmo Renan Filho que deveria ter construído saídas — e que é responsável por uma rede de hospitais no Estado, herança da pandemia — aponta agora o dedo para o prefeito. O gesto tem lógica eleitoral. Não tem lógica moral.

JHC venceu Maceió com mais de 80% dos votos. Oitenta por cento. Um número que não é adesão — é sentença. Ficou claro, para quem quis ler, que ele não ganhou por mérito exclusivo: ganhou porque era o avesso do que o eleitor queria deixar para trás. Rodrigo Cunha e Luciano Barbosa chegaram ao mesmo resultado com a mesma bandeira. O anti-calheirismo virou franquia eleitoral em Alagoas, e JHC — criticado pelos próprios aliados, acusado de não cumprir acordos — teve a sagacidade ou a sorte de encarná-lo. No jogo político, encarnar o símbolo certo vale mais do que ter o currículo certo.

O que vem a seguir é uma eleição sem terceira via com força real para alcançar dez por cento. Sem essa variável, o primeiro turno decide. E quem decidir, provavelmente decidirá por margem estreita — o que torna o resultado ainda mais revelador do que qualquer placar largo seria. Se o calheirismo vencer, terá a tentação de interpretar a vitória como absolvição. Seria o erro mais antigo do poder: confundir sobrevivência com aprendizado. A oposição ampla, com voz miúda na Assembleia mas presença ruidosa nas ruas, não desapareceu. Ela apenas aguarda — com a paciência de quem sabe que os sinais ignorados não somem. Acumulam.

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