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Troca de camisa sem banho

Há governos que pedem aplausos pela obras. Outros, mais modestos, contentam-se em pedir que a população não perceba o quanto está sendo lesada. Alagoas, nos tempos de Paulo Dantas, parece ter se instalado confortavelmente nessa segunda categoria.

A Polícia Federal chegou à saúde do estado com a frieza cirúrgica de quem abre um abscesso há muito maduro. Desvios que rondariam a casa dos cem milhões de reais. No centro do esquema, o nome de Gustavo Ponte de Miranda — afastado do cargo, sim, como manda o figurino das crises bem administradas, mas logo restituído às suas funções com o beneplácito expresso do próprio governador. A bênção veio do Palácio. Depois, veio também de um juiz.

É um movimento que os estudiosos do poder reconheceriam sem esforço: a demissão como peça de teatro, o afastamento como cortina de fumaça, e o retorno silencioso como a verdadeira política de Estado. Tira-se o homem do cargo para salvar o cargo. Salva-se o cargo para manter o esquema. Mantém-se o esquema porque, afinal, cem milhões não surgem do nada — e também não desaparecem sozinhos.

O que chama atenção não é apenas a magnitude do que se investiga, mas a arquitetura da conivência. Afastar e reintegrar, no mesmo movimento de quem troca de camisa sem tomar banho, revela o grau de cinismo instalado no coração da gestão. A saúde pública, área onde cada real desviado tem um equivalente em gente sem remédio, sem leito, sem atendimento, virou praça de manobra para o conforto de poucos.

Paulo Dantas reclamará, como todo governador reclamará, que a oposição instrumentaliza a Justiça. Dirá que aguarda o contraditório, que confia nas instituições, que nada foi provado. É a liturgia de sempre, recitada com a solenidade de quem nunca precisou esperar numa fila do SUS. O problema é que as instituições, desta vez, chegaram antes do discurso.

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