De um lado, a ministra Estela Aranha, do TSE, proibindo o uso de púlpito vazio com o nome de Lula — recurso dramático, teatral, que transforma a ausência num personagem. Do outro, o ministro Gilmar Mendes, do STF, determinando a inclusão de Renan Santos no debate. Dois despachos, duas ordens, dois poderes mandando ao mesmo tempo — cada um numa direção. O resultado foi o único matematicamente possível: silêncio.
Há algo quase grego nessa cena. Não a Grécia dos filósofos, mas a das tragédias: o herói que não consegue avançar porque os ventos sopram contrários, amarrado entre vontades que se anulam. A Globo, que durante décadas foi acusada de ditar as regras do jogo eleitoral, viu-se na noite de quinta-feira transformada em joguete de dois tribunais que não se entenderam a tempo.
Ao eleitor, que acendera a televisão à espera de candidatos, sobrou apenas a grade normal da emissora. Ao debate, que talvez não fosse grande coisa de qualquer forma, sobrou a dignidade improvável de nunca ter existido. E à democracia, que deveria ser a anfitriã da noite, sobrou a sensação incômoda de quem recebe os convidados e descobre que a casa pegou fogo antes da chegada de todos.
O que fica desta quinta-feira não é a ausência de um debate — isso o tempo resolve. O que fica é a imagem de duas instâncias do Judiciário trocando notificações com uma emissora de televisão enquanto o relógio corria, como uma peça de teatro do absurdo encenada com gravidade de cerimônia de Estado. Ninguém errou o texto. O texto é que estava errado.




