Há uma virtude rara na política brasileira que responde pelo nome simples de continuidade. Não a continuidade dos cargos, dos privilégios, das negociatas que se perpetuam de mandato em mandato — essa é comum demais para merecer admiração. Falo da outra, a difícil: a de não abandonar quem trabalha enquanto o poder decide reformar o cenário.
O Mercado da Produção de Maceió existe há décadas como aquela espécie de personagem coletivo que as cidades teimam em preservar não por saudosismo, mas porque ele pulsa. Dentro dele não há abstração econômica nenhuma — há gente, box por box, sustento por sustento, família por família. Tocar nessa estrutura sem um plano de amparo é o tipo de imprudência administrativa que a história local conhece de cor.
Rodrigo Cunha escolheu o caminho menos conveniente, que é também o mais correto. Construir dois galpões — os maiores do gênero já erguidos em Alagoas, segundo a própria prefeitura — ao lado do mercado, com mais de quinhentos boxes disponíveis, não é obra de propaganda. É, antes de tudo, uma questão de lógica: você não derruba a ponte antes de construir a outra. Você garante a travessia.
O que parece simples é, na prática, extraordinariamente raro. A maioria das obras públicas nasce com o comerciante já na calçada, a barraca desmontada, o prejuízo contabilizado em silêncio. A lógica habitual é a da tábula rasa — primeiro apaga-se o que existe, depois se pensa nos afetados, quase sempre tarde demais. Aqui, a estrutura temporária chega antes, e esse detalhe de sequência diz muito sobre o que se entende por gestão.
Maceió tem a tradição de celebrar inaugurações e esquecer os que ficaram para trás durante a obra. Que os quinhentos boxes dos galpões sirvam de memória viva de que é possível fazer diferente — transformar sem destruir, avançar sem deixar ninguém de joelhos na calçada esperando que alguém se lembre de que ele também existia.




