Lula levou ao Tribunal Superior Eleitoral a disputa sobre transparência patrimonial e, no mesmo gesto, desafiou Flávio Bolsonaro a abrir seus sigilos. Pronto: está montada a cena. Dois adversários diante do tabuleiro, cada um apontando para a gaveta do outro.
Há algo de muito antigo nisso. A política brasileira sempre tratou o patrimônio dos seus como assunto de família — algo que se declara por obrigação, se explica por constrangimento e se discute apenas quando o adversário obriga. O cofre é a última fronteira da intimidade pública. Perde-se o cargo, perde-se o partido, perde-se a biografia; o extrato bancário resiste.
O desafio, convenhamos, é uma arma de dois gumes, e quem o lança sabe disso. Quem convoca o outro a abrir os sigilos assume publicamente que os seus estão em ordem — e assume também que a plateia vai cobrar a coerência na hora em que a conversa mudar de lado. É um tipo de aposta em que ninguém mostra as cartas primeiro, e todos juram tê-las boas.
Levar a questão ao TSE tem o efeito de transferir para a arbitragem aquilo que a política não resolveu na mesa. É o recurso de sempre: quando o debate emperra, chama-se o juiz. O Tribunal, que já carrega o papel de contar votos, vai sendo encarregado de contar também os bens, as omissões e as versões. Terceirização do constrangimento.
O eleitor, esse, acompanha de longe, com a desconfiança treinada de quem já viu o filme. Não acredita inteiramente em nenhum dos dois, mas gosta do espetáculo — porque é das poucas ocasiões em que a transparência deixa de ser palavra de discurso e vira exigência concreta, dirigida a um nome com sobrenome. Pena que só funcione assim: na forma de duelo.
Que abram, então. Os dois. A transparência que nasce do rancor ainda é transparência, e por aqui não se pode ser exigente quanto à origem das boas práticas.




