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Do efêmero ao perene

Há peças em que o desfecho é escrito antes do primeiro ato, e ao espectador cabe apenas acompanhar a marcação. É mais ou menos o que se assiste agora: o governador Paulo Dantas renuncia ao mandato, o presidente do Tribunal de Justiça, Fábio Bittencourt, assume o Palácio até o fim do mês e, da cadeira que ocupa por empréstimo, assina a nomeação do governador que acabou de sair para o Tribunal de Contas. Tudo dentro do figurino. Tudo rigorosamente legal.

E tudo rigorosamente combinado. Porque a vaga que se abre não caiu do céu: Otávio Lessa se aposenta do Tribunal de Contas até o dia 30, e a indicação para seu lugar pertence ao Governo. Ou seja, o Governo indica a si mesmo. O beneficiário da escolha é, por uns dias, o próprio titular do direito de escolher — e, para que a aritmética feche, basta que ele deixe de ser o titular segundos antes de ser o escolhido.

Reparem na elegância técnica da manobra. Nada de ruído, nada de sobressalto, nada de barganha vistosa no varejo da política. Uma renúncia aqui, uma aposentadoria ali, uma assinatura de ocasião acolá, e o encaixe se dá com a precisão de relojoaria suíça. Quem acompanha o ofício sabe: as grandes engenharias do poder quase nunca precisam de força bruta. Precisam de calendário.

O que incomoda, convenhamos, não é a letra da lei — essa foi respeitada com esmero. É a lição que o episódio deixa sobre a natureza dos tribunais de contas neste país, concebidos para fiscalizar o governante e transformados, com o tempo, em destino natural dos governantes fiscalizados. A porta de saída de um vira a sala de espera do outro. E a cadeira de quem vigia acaba herdada por quem foi vigiado.

Dantas troca um mandato com prazo de validade por um assento de prazo indeterminado. Do ponto de vista do interesse pessoal, é jogada de mestre: abre mão do efêmero para abraçar o perene, e ainda o faz antes que as urnas tenham qualquer palavra a dizer. Do ponto de vista do interesse público, fica a sensação velha de que certas instituições mudam de inquilino sem nunca mudar de hábito.

Resta ao cidadão o papel de sempre: o de plateia. Aplaude-se pouco, murmura-se bastante, e no dia seguinte o pano sobe para a mesma montagem, com outros nomes no cartaz. É assim há décadas. Até que alguém resolva mexer no roteiro.

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