Há um instante, na política, em que o poder deixa de governar e passa a arrumar as malas. É um momento delicado. O calendário já virou, o sucessor já tem nome, e aquilo que ainda se assina como ato administrativo começa a ter cheiro de inventário. Em Alagoas, esse instante chegou com nome, sobrenome e sigla: ARSAL.
A cena é conhecida de quem já mudou de casa. O inquilino que sai aproveita os últimos dias para pregar os móveis no assoalho, deixando ao novo morador um imóvel em que tudo está no lugar — menos ele. A indicação de Otávio Lessa para a agência reguladora cumpria exatamente essa função arquitetônica, com o detalhe de que a mudança de um abriria a vaga do outro: saindo Lessa, abria-se o assento no Tribunal de Contas que a articulação reservava a Paulo Dantas. Engenharia limpa, elegante, quase silenciosa. Quase.
Porque JHC foi à Justiça e desatarraxou os parafusos. A decisão barrou a nomeação, travou o dominó e, de quebra, suspendeu o segundo movimento da peça, aquele em que o governador de hoje se acomoda numa cadeira de onde se fiscaliza o governador de amanhã. Primeiro round judicial, primeiro ponto do futuro governo. Marcelo Victor, Paulo Dantas e Otávio Lessa saem da mesa com as fichas congeladas.
Não se trata, convém dizer, de uma disputa sobre agência de regulação. Ninguém trava guerra de hermenêutica por tarifa. Trata-se de saber quem manda nos espaços que sobrevivem às eleições — e no Brasil esses espaços são muitos, têm mandato fixo, orçamento próprio e uma admirável resistência a urnas. Governador passa; conselheiro fica.
O que o episódio revela é menos jurídico do que aritmético. JHC ainda não tomou posse e já descobriu que governar, por aqui, começa antes da faixa: começa na disputa pelo mobiliário. E quem perde essa primeira queda de braço descobre, tarde, que herdou o palácio inteiro e nenhuma das chaves.
Fica a lição, velha como as repúblicas: na política, a transição não é uma travessia pacífica. É a última oportunidade que o poder que se despede tem de continuar, por procuração, no poder que chega.




