Em Alagoas, mapa de poder não se lê em urna: lê-se em cano de água, em mercado público, em calçamento de rua de cidade pequena. Quem anda pelo interior sabe disso antes de qualquer pesquisa. A superintendência regional da Codevasf não é um organograma, é uma torneira — e toda a política do estado se organiza em torno de quem tem a mão na válvula.
Pois é exatamente essa mão que está em disputa. O senador Renan Filho, pelo grupo político da família Calheiros, trabalha para assumir o comando da superintendência que hoje funciona como um dos principais instrumentos de influência do senador Arthur Lira. A movimentação é de artilharia, não de infantaria: atinge o adversário no ponto em que ele é mais forte, que é a capacidade de dizer ao prefeito do sertão para onde vai o recurso e em que mês ele chega.
Porque o cálculo tem duas faces, e ambas são frias. A primeira é subtrativa — tirar de Lira o poder de decidir o destino do dinheiro da Companhia, esvaziando sua articulação no interior. A segunda é construtiva — costurar diretamente com as prefeituras a ponte entre o governo federal e os municípios, de modo que o projeto viabilizado passe a ter outro sobrenome. Em política, favor prestado é hipoteca; e hipoteca se transfere.
Não se trata, portanto, de trocar um nome por outro num ato publicado no Diário Oficial. Centenas de milhões de reais atravessam aquela estatal rumo a sistemas de abastecimento de água, obras de infraestrutura urbana, mercados públicos — coisas que mudam a vida concreta de gente concreta. Quem senta na cadeira acelera ou adia o desenvolvimento de cada cidade. É o poder de definir prioridades, que é o poder mais antigo que existe desde que alguém descobriu que é possível irrigar uma terra e deixar a do vizinho seca.
Nada está confirmado. Não há ato oficial, não há cronograma, não há desenho final. Mas prefeitos, lideranças e observadores acompanham o movimento com a atenção de quem conhece a liturgia: primeiro se desmonta o apoio, depois se anuncia a mudança. E o pano de fundo não é detalhe — Lira apoiou abertamente Flávio Bolsonaro, e na aritmética de Brasília endereço escolhido se cobra em cargo perdido.
Os próximos meses dirão se a nova configuração se consolida ou se outras variáveis entram em cena, como quase sempre entram. Até lá, vale observar o essencial: em Alagoas, a próxima eleição já começou, e ela está sendo disputada num canteiro de obras.




